segunda-feira, 23 de abril de 2012

essas são as melhores coisas

aquelas que recomeçam
antes do oceano
nascer por completo 

quinta-feira, 29 de março de 2012

afio a alma
até me esgoelar
por dentro
não perco
a cor do poema
nem lapso
de pele 

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012


quando nada de fútil me induzia adiante notei que amanhã seria um bom dia pra domesticar desejos. não havia registrado o limiar que arreda a magia dos atos da desventura do tato - penava ainda a fragrância confusa no lençol. queria ser deixado de lado. um âmago de denotações abanava pra mim e semana passada aquele amigo de tão longe foi certeiro ao prever o que o mundo ainda não podia me dar. desdenhei como  faço quando não contenho as rimas de uma conversa e senti falta de algo que não sabia bem o que era - sei bem o que escusar mas não o que beijar.
tinha vergonha dos amigos encrespados em fábulas bufas e orgulhava-me de estar em uma ilha de percepções sensatas. a adolescência poética era uma praga chaveada na gaveta do criado-mudo, a guinada para dentro da cápsula do presente a saída concreta contra qualquer comedimento. a porta dos fundos da mente empalidecia sem dar sinais os olhos murchavam sem descolorir.
bem, naquele dia ela veio trazer à tona toda a mediocridade que explicito aqui. por acaso sua falta de verbo e excesso de desvirtuamento instaram todo o lodo onde lavava o rosto e justamente quando achei que estava com a voz perfeita entre as gengivas o trem foi descarrilhado. vi naquela hora que a ordem natural das coisas só ganha vigor quando se é anistiado o enigma e nada se contenta quando os olhos são espetados com fineza por quem quer que seja. depois entendi o que os grandes navegantes portugueses sentiam ao afagar o nada como a passagem mais inteirada de tudo.
não zelo aqui o romantismo ficcional e sim a aferição de qualquer asneira que tenha me sufocado. não liquido gestos para achar tudo cinematográfico outra vez e sim para rejuntar as tais partículas elementares antes que elas tomem conta de mim. dito isso, prefiro não continuar divagando.




segunda-feira, 16 de janeiro de 2012


estava lá, em mais uma daquelas tardes de afeto embaralhado permeando fios da utopia. trincado no coração cingido entre pieguice e aliteração. gracejava no pasto de escamas, dos livros tacanhos atados nele, que não deveriam ter sido expostos na praça pública do afeto. abandonado naquela cadeira com olhos foleando móveis, esperava dali alguns segundos deslizar até a casa perfumada. suado e difuso, na proximidade geográfica do abismo, sensorial, ainda hoje iria enterrar os olhos nela e quem sabe perder de vista alguma verdade.
em julho reparou no espelho depois de escovar gengivas. disse em baixo e bom som que não queria mais seguir bons conselhos. entraria de corpo e sem calma em um pântano aquarelado qualquer. mas a mesma mentira que adota, debela. depois do carnaval de tanto vento, tudo que era pra ser se foi nas últimas semanas rasgando.
nem se lembrava do nome de algum lapso circunscrito em pele e seu horóscopo formava-se através do automatismo psíquico do tato, das coisas velhas - sonhava em tocar o absurdo de ontem, com a pele de agora, no pulso de amanhã. não costumava acreditar em folhetins do século retrasado até desconhecer aquela figura nesse tempo. desprendeu a desconfiar da arte, depois de vê-la pela primeira vez, num lugar onde nunca apetecia achar alguém, assim, pela primeira vez. não precisava dela, quis precisar. ela olhou com cara de tédio, dançou tango na faixa da contramão. com os dois corpos assinalados pra ele – um de dentro e outro de fora – falou tudo o que queria ouvir desde que saiu de algum lugar agastado do asfalto.
tudo que é forte acaba sendo inexoravelmente injusto. ela foi mais forte que ele e, enfim, ele não sabe ao menos desejá-la. onde está ela agora há não ser num ponto nu do mapa? ela deveria estar nesse lápis, nesse copo de refrigerante ou no carpete vermelho. por que diabos se buscam nuances ao invés de verbetes de dicionários amorosos envelhecidos? o que era pra ser sentido foi notado o que era pra ser vencido foi riscado. o vivo, agora, é o adeus convulso e perfeito na licença dos fatos. 

terça-feira, 20 de dezembro de 2011


escrevia pra abafar a astúcia de ser humano pela metade. o poeta é, antes de tudo, um fraco, ecoava. acordava com alma mirrada, dormia com corações incinerados. jogava dardos no asfalto, sem alvo, nutria-se do que as nuvens ainda retinham de pedra. pra vencer isto tudo, arquitetou aquela menina, ainda ela sendo chuva provisória onde brincava de não se queimar.
notava nada de novo no silêncio líquido dela, mas era melhor pasmar ali que boiar em um campo inanimado qualquer. o tato de cada piscada de olho marcava o retrato da marca d’água do tempo. cada beijo cingido minava o pacto obtuso com calendários – contavam-lhe sobre os ponteiros ausentes nos relógios. ele achava bonito e oco aquilo tudo também. o que remetia à ela afagava e cegava.
pôde nunca ter amado com verdade mas muito menos amou de mentira. gostava por ela ser menos que ele e mais que o mundo dos dois clivado ao meio. se o amor não fosse um susto, poderia ser achado de súbito quando tracejava o peso da estação. acontece que o ano acabou, ele não. a vida estava posta. restou nominar sonhos, emparedar entranhas em algum lugar seguro. mas quando vale um beijo estúpido esculpido no ato por dois amigos de carne? o amor só pode ser mesmo um artifício a ser bordado em pleno desespero?      

quarta-feira, 23 de novembro de 2011


amigos em pólos confusos da paisagem mas com as sombras intrincadas na mesma moeda. amigos além da linguagem do agora. “dois animais na selva suja da rua”, como diz aquela canção do rádio. muito interessante o que você não vai dizer agora... olhos nos olhos da boca do afeto. um silêncio não interrompido soa como verdade fatal. dois fantoches do passado vestem hoje a mesma carapuça e ninguém acha estranho. em algumas páginas atrás no calendário alguém escondeu um osso na terra e nunca achou mais. foi preciso que aquele “companheiro de todas as horas” reatasse essa linha do tempo para diluir algum verbo esgotado na garganta, mas quem maquia demais os fatos acaba sempre mijando nas calças antes da hora.  o álibi do traidor é um prato frio colorido; o preço que o traído paga não é descontado no juízo final dos anos. mesmo assim, certa dose de carinho ainda mendiga migalhas. um entende o outro como um dono compreende o seu animal doméstico: depois de uma passeio agradável, as fezes são juntadas sem mais delongas. o que resta é aquela alegria de ser quem não somos de vez em quando e continuar cada um no seu microcosmo, revirando as páginas do livro sem notas de rodapé. 

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

por onde ela
andou todo esse
tempo sem ao
menos voltar aqui e
restituir as cores
em seus devidos lugares? 

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

sábado, 20 de agosto de 2011

anotações

relembrei sua ausência
na chuva branca
e hoje só rabisco monstros
com patas macias

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

lua quente

meu amor é um choro calmo
sei que é triste ser sincero
no abismo dum abraço
quando já não te espero

você brota na minha cama
como uma flor confusa
cravada no meu olho
lua quente que flutua

usa minhas roupas
mas não se exibe pela rua
desenhando no asfalto
aquarelas de loucura

te vi brincando nua
no espelho sujo do meu quarto
cortando suas franjas
sem você o mundo é chato

mas meu tempo é curto
na medida no acaso
transbordo todo medo
pra morrer num beijo falso

algum dia a gente pode
sair voando
pra uma terra onde exista
verdade no meu canto

domingo, 24 de julho de 2011

nascer sem fim

quando eu nascer
quero voar
eu sem morrer
já quis brilhar
depois do sol
bater em mim
eu vou nascer
nascer sem fim

antes do mar
me abandonar
eu paro o sol
já vou voar
depois de mim
ninguém nasceu
alguém enfim
me esqueceu

alguém me traz
a solução
não quero paz
nem deus em vão
ninguém me faz
dizer então
alguém em paz
traz a canção

quinta-feira, 16 de junho de 2011

simples no ar

quero saber da verdade enfim
beijos choram pra não nascer
brincando na curva das minhas veias
até o sangue se perder

cada palavra é uma leve espera
pro instante do beijo revelar
nosso mundo lindo
morto no ar

quero saber da saudade em mim
beijos nascem pra não chorar
brincando na curva das suas pernas
a minha língua vai descansar

cada verdade é um peso eterno
pro instante do beijo revelar
no meu dia vivo
simples no ar

sábado, 4 de junho de 2011

meu cachorro

meu cachorro é um bicho esquisito
e ele esconde bem mais que um latido
com seus olhos e pelos perfeitos
até parece um anjo sem jeito

que não sabe voar
mas corre livre no ar
que não sabe sentir o chão
perdido numa nova dimensão
caído num mundo de estimação
brincando como um lobo sem razão

o meu lindo fiel companheiro
só passeia o ano inteiro
e de cara me faz perceber
que o melhor de tudo é não saber

que não sabe chorar
mas dorme solto no lar
que não sabe cuspir no chão
perdido numa nova diversão
caído farejando o céu e o pão
brincando entre os bichos da estação

quando um dia no fim te perder
esse dia não vai me doer
vou lembrar do seu latido então
bichinho lindo de estimação

que não sabe esperar
mas late pro tempo voar
que não sabe ouvir um não
perdido numa nova solidão
caído entre os versos da canção
brincando do meu lado meu irmão